Orbó, mito fundador:
Passei um tempo entre montanhas, minas, lagos, desertos e glaciares antigos, canibalizando os frutos transparentes da terra, enlouquecendo o olhar com o brilho de metais cintilantes, procurando mistério, desvendando significados, estreitando a distância entre dualismos. Agora, através de uma orbe, vejo um casco de tartaruga e inscrições de significados completos, uma criança que nasce com uma jade na boca e que era uma enorme montanha.
Processo
Anéis Pluma e Mantélico
Estava fazendo anéis do estilo signet diariamente, experimentando diferentes materiais e ferramentas. Logo que terminava uma peça, começava a descaracterizá-la, até que já não fosse possível reconhecer o que sobrava como um anel.
Entediado com o ritmo das repetições, iniciei uma outra coisa, escavei um furo torto na cera, fiz no topo um relevo inclinado e arredondei os lados. Fiquei magnetizado por aquela forma lunar que o anel ia tomando. Minhas mãos quiseram que a peça parecesse feita em um único movimento. Um cabochão de safira estava na minha frente e quis encaixá-lo nesse mesmo movimento.
No dia seguinte fui refazer o modelo, porque o primeiro modelo agora me parecia monolítico demais. Usei uma cera menos resistente. Aqui cravei um rubi.
Estava certo de que, após a fundição, escolheria um modelo ou outro. A fundição foi feita nos dias em que estive na trilha do Itupava. Em uma descida, a raiz de uma árvore atravessava as pedras do caminho com uma fluidez que parecia me dizer que as coisas são.
No retorno, as peças fundidas me mostraram que cada uma era única, não teria que escolher uma em vez da outra. Lembrei-me de que do Vazio surge o Um, do Um surge o Dois, do Dois surge o Três e do Três as Dez Mil Coisas.
Escolhi fazer essas peças com safira e rubi também porque são minerais sem silício em sua composição. O silício, em sua forma oxidada, é bastante presente nos minerais usados na joalheria e também em componentes eletrônicos que digitalizam nosso mundo, nossa vida. Em certo sentido, pode-se dizer que um notebook é uma pedra pensante.
Nessa pequena série, quis me afastar dessa digitalização universalizante ao mesmo tempo em que assumia essa contradição em que vivo. Para isso, escolhi safiras e rubis cultivados em laboratório por um processo que também dá origem ao silício utilizado na produção de alguns componentes eletrônicos.
Nossos olhos conseguem diferenciar a safira e o rubi naturais daqueles que são cultivados em laboratório. O maior vestígio da forja humana são pequenas bolhas de gás que ficam presas no fundo da pedra. Apesar de serem resultado de uma técnica, essas bolhas de gás me lembram do ciclo das rochas, da formação natural dos minerais e do movimento dos fluidos do interior da Terra.
Um movimento em específico desse interior é chamado de pluma mantélica, que dá origem aos vulcões. A imagem que carrego do que acontece nesse lugar é muito parecida com o que vejo em uma lava-lamp e, agora, também nesses anéis.